O receio da troika de que o impacto da crise nos sectores da construção e imobiliário nas contas da banca portuguesa seja, afinal, maior do que o estimado parece estar já a concretizar-se.
A preocupação dos credores externos sobre a ameaça que a construção possa ter na saúde financeira da banca nacional – depois do que aconteceu noutros países como a Irlanda ou Espanha, em grande escala – foi demonstrada, pela primeira vez, ao Governo de Passos Coelho no início do Verão passado, durante a quarta avaliação ao país.
A semana passada, os resultados das inspecções às carteiras de crédito feitas pelo Banco de Portugal (BdP) revelaram que os bancos portugueses terão, já este ano, de fazer provisões, inclusivamente, superiores ao previsto pelos credores externos para compensar perdas nos sectores da construção e do imobiliário.
O banco central, presidido por Carlos Costa, estima necessidades de 861 milhões de euros, quando a troika falava de 848 milhões. Dos 861 milhões em falta neste ano, os oito maiores bancos portugueses tinham já provisionado 387 milhões até Setembro, faltando, por isso, até Dezembro os restantes 474 milhões de euros. Estes valores vão pesar nas contas anuais das instituições. O BCP, o BES e a Caixa Geral de Depósitos (CGD) são as instituições mais expostas a perdas ( ver quadro).
Situação agravou-se nos últimos meses
No Verão, o chefe de missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Portugal, Abel Selassie, mostrou estar «preocupado» com o impacto das falências na construção e imobiliário, dois dos maiores clientes da banca em Portugal, frisando que a materialização dos riscos crescentes poderiam ameaçar a estabilidade do sistema financeiro no futuro.
Para este responsável, a evolução vertiginosa da subida do crédito malparado, as centenas de falências e as vendas a desconto de imóveis tornavam claro que parte dos 70 mil milhões que as empresas de construção e imobiliário devem à banca nunca será paga na totalidade, o que poderá ameaçar os balanços das instituições financeiras.
E, desde o primeiro alerta do FMI em Julho, a situação continuou a agravar-se. De acordo com os dados mais recentes do banco central, o rácio de crédito vencido das empresas à banca atingiu os 10,6%, mais 20% do que o valor registado em Julho deste ano (9,1%), e o dobro do existente quando Portugal pediu o resgate à troika (5,1%), em Abril de 2011. Hoje, quase 30% das empresas têm créditos por pagar.
Com o prolongamento da recessão e a forte subida de impostos previstas para 2013, a venda de imóveis ou a capacidade de as empresas pagarem as suas dívidas deverá continuar em queda e obrigar a banca a fazer novas e cada vez maiores imparidades.
Banca diz estar tranquila
Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos (APB), garante, porém, que «não há a mínima razão de preocupação acerca do rigor com que os bancos estão a registar as imparidades», em declarações ao Diário Económico.
O sector da construção e do imobiliário representa 40% do total de crédito concedido a empresas pela banca, segundo o BdP. A AECOPS, a maior associação de empresas de construção, refere que, no último ano, faliram cinco mil companhias no sector, e a APEMIP, associação do sector imobiliário, adianta que 2012 será o pior ano das duas últimas décadas na venda de casas, e que há em Portugal cerca de 700 mil imóveis por vender.
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