Entrevista a:
Filipe Castro Soeiro, Professor convidado da NOVA School of Business & Economics e membro do Board of Directors da APBA – Associação Portuguesa de Business Angels & Economics.A consolidação orçamental no âmbito do programa acordado com a Troika é essencial para diminuir o nível de endividamento (do Estado, de 55% há 15 anos e de 230% em 2010, com o sector privado a contribuir com 80% do total) para recuperar a confiança dos mercados externos e reaver a saúde financeira perdida das contas públicas, administração e empresas incluídas.
Fazê-lo responsavelmente é ganhar a oportunidade de recentrar os nossos valores e deveres colectivos de exigência em torno da recuperação económica, social e cultural.
Além do equilíbrio das contas públicas, significa ganhar autoridade moral e capacidade para vir a (re)negociar com a Troika futuras metas e evolução de reformas (na justiça, educação, saúde e leis laborais), pois a austeridade também tem o efeito de contrair a actividade económica.
2. Relançar o financiamento da economia e desalavancagem da banca.
Num contexto de corte no crédito, de activos sem liquidez e de redução de garantias bancárias, para passar rácios de empréstimos sobre depósitos de 160% para 110% (são mais de 35 mil milhões de euros, ou seja 15% a 20% do PIB, superior à poupança líquida) é necessário estruturar uma política de recapitalização para promover acesso ao capital por parte do tecido empresarial e das "start-up".
O que é gerado pela poupança líquida (cerca de 11 ou 12 mil milhões de euros) é insuficiente. Não está em causa a confiança no sistema bancário, mas são necessárias melhores condições para o processo de desalavancagem (desendividamento) dos bancos portugueses e para o acesso ao capital por parte das empresas e "start-up".
3. Em paralelo, avançar com uma visão estratégica sobre o lançamento de um programa estruturado de crescimento económico, de competitividade e emprego à escala europeia - articulado com as fases anteriores.
Os programas actuais são necessários, mas não são suficientes. São necessários novos modelos económicos e sociais que conduzam a novas oportunidades de aumento da produtividade e de eficiência do investimento à escala europeia, e também a sistemas de criação e de partilha de valor que aumentem a solidariedade e a responsabilidade social. A crise na União Europeia, além da inversão de valores essenciais, colocou também a descoberto problemas ao nível da liderança, da tomada de decisão, da representatividade e dos modelos de "governance". O institucional reflectiu-se no empresarial. O económico e financeiro no social. Ora, o lançamento de um programa deste nível é urgente. Com a crise, a Europa está a desacelerar para cerca de 1,5% em 2012.
Reavaliar pressupostos técnicos das medidas da Troika e lançar, em paralelo, outro programa de apoio ao crescimento económico à escala europeia, com articulação e coordenação entre os dois programas, trazendo para as negociações a OCDE e o BEI. As prioridades passam por alterar o modelo actual de desenvolvimento e de valorização de recursos e de talento. O actual está falido. Foca-se na exclusiva redução do custo, em detrimento do aumento do valor. A consequência leva ao "dumping social" e ao desequilíbrio de acesso e de gestão de recursos dos territórios e regiões.
Para além da consolidação fiscal com incentivo ao crescimento económico, deve-se potenciar os processos de transferência de inovação e de tecnologia das universidades e centros tecnológicos para o mercado e dinamizar o lançamento e aceleração de projectos inovadores em rede, que envolvam combinações de recursos e capacidades de "clusters" em sectores multi-diferenciados, tradicionalmente considerados de forma verticalizada.
A implementação de um plano estruturado em torno de um novo modelo de desenvolvimento de "clusters", compostos por grandes, PME e "start-up", com alcance internacional, a par da mobilidade de recursos é fundamental para a nossa economia.
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