Passaram-se mais de 40 anos desde que se vinculou a Portugal, com a construção da Quinta do Lago. Desse projecto - onde nasceu André Jordan, o ícone do turismo e do imobiliário nacional - ainda guarda uma alga recolhida nas imediações da obra, que serviu de pano de fundo a esta entrevista.
Era um país muito diferente, que o empresário conseguiu colocar no mapa mundial do golfe, sobretudo com a reabilitação que fez em Vilamoura. Diz que já passou por muitas crises e que o mercado voltou mais forte. Sente, no entanto, que as oportunidades que hoje existem estão a ser mal exploradas, também pelo Governo, porque acredita que políticas cegas não são a solução. As atenções estão voltadas agora para o Belas Clube de Campo, em Sintra, propriedade que comprou na década de 90 e que vai entrar numa nova fase de comercialização.
Veio para Portugal na década de 70 porque viu potencial por explorar. O que vê agora?
Continuo a ver um enorme potencial por explorar. Ainda há três segmentos diferentes que, se forem bem explorados, serão grandes oportunidades. Um deles é o dos reformados, pré-reformados e semi-reformados, que já não trabalham a tempo inteiro, do Norte da Europa. A outra oportunidade são os países emergentes: China, Brasil, os países africanos. E a terceira é o mercado interno, que é preciso reanimar.
Concorda com a visão do ministro da Economia de fazer de Portugal a Florida da Europa, muito assente no turismo para reformados?
Não há nenhuma razão para que não seja assim, como aconteceu em França e Espanha. Há anos que digo para irmos buscar esse mercado e não fomos. Mas o Governo tem de apoiar esse trabalho e continua sem o fazer. Em Portugal, o turismo é uma actividade envergonhada. Há uma ideia de que o sector não é nobre, mas não há uma exportação maior do que o turismo ou do que o imobiliário turístico.
Não tem sido dada a devida importância ao turismo, tendo em conta o peso que tem nas exportações?
Não se tem feito praticamente nada, mas isso seja da parte do Governo ou dos empresários, que continuam a pensar que é o Governo que tem de intervir. O que o Governo tem é um papel catalisador e coordenador que também não está a ser exercido. E isso é muito claro agora, com a crise que está a acontecer em Espanha. Não temos sabido aproveitar o momento que Espanha está a atravessar, o facto de estar completamente fora do mercado. Mas isso obriga a estar sempre em cima do acontecimento. Quando o Presidente Hollande anuncia em França um imposto de 75% para as grandes fortunas, deve haver uma reacção imediata. Depois desse anúncio, estivemos numa feira em França, e sentimos logo muito mais interesse dos franceses em investir no imobiliário nacional. A feira era organizada pela banca, porque infelizmente estamos a sofrer agora com essa concorrência violenta.
Além de violenta, como diz, a concorrência da banca é desleal, tendo em conta que podem oferecer outro tipo de benefícios aos clientes, nomeadamente no financiamento?
Não posso incomodar-me com isso. Se tiver de escolher entre o mercado ficar parado ou normalizar, mesmo que por causa dessa concorrência, prefiro que a concorrência da banca exista.
No sector do turismo, o que o Governo anuncia mais são cortes e reestruturações. O caminho será por aqui?
O sector pode fazer uma contribuição muito positiva que não está a ser feita. É como nas empresas. Nós, por exemplo, não temos receitas neste momento porque os produtos que tínhamos estão vendidos e vamos lançar agora novos. Se fosse há alguns anos, teríamos gasto muito mais dinheiro, teríamos feito muito mais investimentos. Mas tivemos de optar pelas parcerias. Os três administradores da empresa já deixaram de receber ordenados há alguns meses, quase um ano. Agora os cortes não podem ser cegos. Há sempre maneiras de reestruturar sem matar, quando se analisam os problemas especificamente. Há alguns meses, disse, numa conferência, que o sector tinha de ser reestruturado e alguns dos empresários que já faliram ou estão a caminho da falência vieram dizer que eu estava a criar pânico.
Tem havido, de facto, vários casos de grandes projectos que faliram ou estão em graves dificuldades, como aconteceu com a SAIP no Alqueva, os hotéis CS ou a Imocom, que era parceira do Hilton. Ainda não vai ficar por aqui?
Já assisti a muitas crises e todas as vezes o mercado voltou e voltou mais forte. Esta crise é diferente porque não houve suficiente controlo do mercado financeiro e foi possível utilizar o crédito imobiliário para fazer uma espécie de multiplicação de pães.
Pães que não tinham miolo?
Infelizmente. Foi uma coisa inédita. Mas penso que o que tinha de acontecer já aconteceu. Os grupos que entraram em ruptura financeira por sobredimensão ou pela própria crise já foram identificados. Agora haverá um processo de consolidação, mas não conheço outra resposta à crise que não seja o consumo. Para dar a volta a esta situação, é preciso vender.
Esse raciocínio só fará sentido para os consumidores estrangeiros, tendo em conta os sacrifícios que estão a ser pedidos aos portugueses?
Se houvesse uma maior concentração em analisar o que está mal e em suportar o que está bem, não teríamos essa crise. Não sei se há ou não alternativa ao corte da Taxa Social Única, mas sei que qualquer medida tem de ser ajustada a cada sector. Seria muito melhor que não houvesse subsídios de férias e de Natal, mas sim direito a prémios de produtividade e de participação nos lucros das empresas. Há que fazer ajustamentos, mas compensando de outras maneiras, motivando o trabalho e o investimento.
O Governo não está a dar ouvidos ao país, especialmente às empresas?
Acho que não. Mas também é preciso que os empresários sejam mais activos. Não basta deixar o Governo fazer para depois dizer que está mal feito. E estes episódios como as manifestações repercutem no estrangeiro que existe instabilidade e isso não é favorável à imagem do país.
O problema é dos episódios em si ou daquilo que os provoca?
Tem havido uma forma de lidar com estes problemas todos que é demasiado insensível e cega. Corta aqui, corta ali. Fecha isto, fecha aquilo. Isso de sermos um bom aluno mas estarmos mal não bate certo. O português tem mostrado uma resistência e humildade enormes e altamente louváveis. Mas é preciso que haja perspectivas e haja acções que permitam às pessoas recuperar a sua dignidade financeira.
A segunda oportunidade de que falou foram os mercados emergentes, mas há, neste ponto, uma questão que terá muita influência. Preocupa-o que a urgência da privatização da TAP ponha em causa os interesses do país, pela presença que a empresa tem no Brasil e em África?
Por que é que havemos de pensar que alguém que vai comprar a TAP o fará para a destruir? Quem comprar será justamente por causa desses mercados, para mantê-los e aumentá-los. O que eu acho é que nós precisamos de muito mais acessos aéreos a outros mercados. E preocupa-me o facto de achar que dificilmente haverá boas propostas para comprar a TAP e só um bom investidor privado pode resolver o problema das ligações aéreas. Era natural que houvesse pouco interesse nesta privatização porque se trata de uma empresa financeiramente doente.
Recentemente fez um apelo aos portugueses para passarem férias em Portugal, que está ainda muito dependente dos mercados tradicionais. E se os turistas ingleses e espanhóis começarem a fazer o mesmo?
Mas já o fazem. No Reino Unido, houve este ano muitas campanhas nesse sentido, a apelar às pessoas para ficarem no país. É uma guerra e temos de lutar com todas as armas que temos.
Em alguns casos, não é mais barato passar férias em Portugal. É possível o Algarve tornar-se mais competitivo a este nível?
O Algarve já está numa situação muito difícil. O número de turistas está a aumentar, mas diminuem as receitas. Este Inverno vão fechar hotéis, restaurantes e também campos de golfe.
Até quando haverá margem para continuar a reduzir preços?
Já não há margem nenhuma neste momento. Mais vale ter 50% de ocupação num hotel mas manter a receita, do que ter o hotel cheio e reduzir preços. No final de contas, sai a perder quem tem a ocupação total, porque haverá sempre mais custos.
Mais grave do que as margens é o nível de endividamento de algumas empresas. A culpa foi da banca ou foram investimentos mal acautelados?
Houve muito pouco profissionalismo de parte a parte. Muitas pessoas meteram-se em projectos cuja validade era questionável e os bancos discriminaram pouco. Era tudo demasiado fácil.
Como tem sido a relação do vosso grupo com a banca?
Neste momento, procuramos compreender os problemas uns dos outros. O banco acredita na nossa capacidade de superar as dificuldades e nós procuramos compreender as dificuldades que o banco tem em ser liberal no crédito. Em termos de passivo, estamos confortáveis.
Que tipo de ajustamentos a crise obrigou o grupo a fazer, nomeadamente no projecto de Belas? Tiveram de rever calendários?
Com certeza. Lançar o produto e não ter sucesso é aterrador. Estamos em permanente discussão. Tínhamos imaginado sair esta Primavera ao mercado e agora estamos a pensar numa primeira leva de produtos para Novembro e uma maior em Março ou Abril.
E no calendário para finalizar as vendas também houve reajustes?
Tenho de responder honestamente que neste momento não somos capazes de fazer uma previsão de quanto tempo demorará, até porque estamos a desenvolver muitos mercados ao mesmo tempo.
Fez recentemente 79 anos. É difícil preparar a sucessão num momento de crise como este?
Claro. No outro dia, o meu filho disse-me: "Pai, tem 79 anos e ainda trabalha oito horas por dia. Como é que é possível?". E eu respondi-lhe que não trabalho oito, trabalho 16 horas por dia. As outras oito horas passo a pensar na situação que vivemos agora. Se não fosse esta crise, estaria muito menos envolvido na empresa, mas ele precisa de mim e eu estou aqui para ajudá-lo.
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