António Saraiva
Presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP)
Um plano de reindustrialização deverá integrar três grandes vertentes: condições que permitam o reforço do investimento empresarial nos sectores produtores de bens e serviços transaccionáveis; estímulo à competitividade e inovação; estratégia coerente de internacionalização da economia.
Na primeira vertente, é prioritário ultrapassar a presente situação de escassez de financiamento e de baixos níveis de capitalização da generalidade das empresas. No domínio da fiscalidade, é necessário sinalizar a prioridade de promoção do investimento e de atracção de investimento estrangeiro. A CIP espera que a reforma no IRC não ponha em causa o reforço do Regime Fiscal de Apoio ao Investimento, incluindo uma componente de dedução de lucros retidos e reinvestidos.
Relativamente à segunda vertente, a médio e longo prazo, as empresas terão de aumentar a produtividade, o que exige investimento e uma forte aposta na afirmação de marcas, no design, na inovação, na organização e na capacidade de gestão. Este esforço cabe, em primeiro lugar, às próprias empresas, mas só poderá concretizar-se num ambiente propício à actividade empresarial e se combatermos o nosso mais sério handicap: o atraso na qualificação dos recursos humanos, que refreia a produtividade. No curto prazo, a contenção de custos é incontornável. Não apenas os salariais, mas também outros custos que pesam sobre as empresas.
A CIP continua a considerar que a redução selectiva da TSU é da maior importância para aumentar a competitividade das empresas produtoras de bens e serviços transaccionáveis.
Relativamente aos custos não salariais, destacam-se, pela sua escalada e pelo peso que representam na estrutura de custos das empresas, os custos energéticos.
Finalmente, a reindustrialização do país, no quadro do aumento do peso dos sectores produtores de bens e serviços transaccionáveis, pressupõe obviamente uma estratégia coerente de internacionalização da economia.
A CIP espera do Governo uma atenção acrescida para a política de internacionalização, sobretudo em termos de melhoria da eficácia dos seus instrumentos e em termos de adopção de uma estratégia nacional.
Relativamente a experiências de outros países citaria o exemplo da Irlanda nos anos noventa do século passado, onde o grande desenvolvimento de que beneficiou foi acompanhado por um acréscimo do peso da indústria na economia, através de uma estratégia bem-sucedida de atracção de investimento estrangeiro. Também o caso da Alemanha, que tem conseguido manter uma base industrial forte, é bem a prova de que é possível reindustrializar a Europa e produzir de forma competitiva no solo europeu.
No entanto, não existem receitas que se possam copiar. Portugal terá de encontrar a sua própria estratégia de reindustrialização, inserida num processo mais vasto de reindustrialização e recuperação económica da Europa. De facto, a economia portuguesa não está isolada; está inserida numa economia europeia e global e só poderemos obter resultados verdadeiramente satisfatórios num enquadramento internacional (e sobretudo europeu) de crescimento económico, que crie procura para os bens e serviços que produzimos.
Sobre o papel do ministro da Economia, considera que a reindustrialização do país deverá ser um desígnio nacional, que vai para além da vontade de um único ministro. Será obra das empresas portuguesas, não de qualquer Governo. Como referi, nem tudo depende da nossa vontade. O crescimento económico dos nossos parceiros comerciais é fundamental. Contudo, esse desígnio só será concretizado mediante uma política económica que crie as condições necessárias para tal. É isso que defendemos, é isso que esperamos do Governo. Sabemos que o ministro da Economia está profundamente convicto de que este é o caminho certo para a recuperação económica e isso dá-nos ânimo para continuar a trabalhar para atingir os nossos objectivos.
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